Revista Sinuosa

“Quando me excito, eu gozo, eu canto”: apontamentos sobre o pornô artístico

O “pornô artístico” é um gênero a definir. “Artístico” é algo a definir. Como também “pornô” é algo que ainda requer uma boa definição. Ou não. Talvez. Só sei que eu é que não vou definir! Sempre há exceções à definição, não se pode negar. É que nem regra gramatical. Pois bem.

Assistir um filme do Bonello e ler um conto do Bolaño me fez refletir sobre o limiar que separa a (sétima) arte e o cinema, por definição, pornô. Ambos são exemplos do que se poderia chamar de “pornô artístico”, ou ainda, “arte erótica”. O cineasta francês Bertrand Bonello lançou, em 2001, o filme Le Pornographe, que retrata a relação conturbada entre um pai, o renomado pornógrafo Jacques Laurent (estrelado pelo brilhante Jean-Pierre Léaud), e um filho, Joseph, jovem à procura de um ideal revolucionário semelhante ao de maio de 68. Coincidentemente, no mesmo ano, o escritor chileno Roberto Bolaño publica o livro Putas Assassinas, em que consta o conto “Prefiguração de Lalo Cura”. Neste conto, o narrador é filho de Connie, uma atriz pornô que, juntamente com a irmã Doris e com a amiga Mónika, são as garotas da Produtora Cinematográfica Olimpo, dirigida pelo cineasta Helmul Bittrich.

O cinema de Laurent e Bittrich tem muito em comum. Em seus filmes, o ato sexual, ainda que ocupe o papel de protagonista, como todo pornô que honre o nome, não exclui a abordagem e a exploração de outros temas e de outros elementos em cena. Laurent elabora ideias fílmicas que fogem do foco prático do pornográfico e se tornam apresentações do belo, como em seu último filme, que retrata uma caçada, a perseguição sexual de uma moça. A última sequência do filme ocorre na seguinte ordem: a moça a correr em meio à floresta; as cenas mostrando as estátuas; a abertura do filme com seu título (L’Animal); os cães, que são soltos para a perseguição; o céu nublado; a inserção de uma música altiva, épica; novamente, a cena das estátuas; o cerco à garota; o close em alguns cães; o close na fronte de uma estátua; por fim, gemidos que inferimos serem da realização do ato sexual.

A tensão sobre o conceito de “filme pornô” é tão irrefreável que já não sabemos se chamamos os diretores de “pornógrafos” ou de “cineastas”. No caso de Jacques Laurent, o nome “pornógrafo” é um condicionante da relação que ele estabelece com o filho. Ele pergunta ao jovem: “Preferia que eu fosse industrial?”. Joseph responde que este não é o problema. Ao que o pai completa: “Meu pai era médico. Eu também achava obsceno o que ele fazia”. As conversas que Laurent tem com seu filho manifestam claramente a intenção do cineasta por tentar obliterar ao máximo o caráter obsceno de seu trabalho.

O mote que rege o ideal revolucionário do grupo de colegas de Joseph é este: “vivemos uma era sem alegria e contribuímos para isso”. Eles contemplam a falência geral do sistema social e acreditam que “calar é o protesto final”. O silêncio como protesto me faz lembrar o cinema mudo dos anos 20, época da disseminação dos filmes pornô, de sua posterior ilegalidade, da produção fílmica em bordéis e do aparecimento do cinema pornô amador. Ora, não seria a história do cinema pornô a própria cronologia de um ato social e político de libertação? Em um dos diálogos do filme, Joseph diz: “quando as pessoas iam para as ruas em 68, era romântico. Porque recusavam a sociedade tal como era. Os velhos símbolos, o trabalho… Nós protestamos pelo contrário. Para trabalhar, ser reconhecido pela sociedade… e também para ser invisível. É individualista. É terrível”. Ao que Laurent responde: “o capitalismo gera a crise, a crise gera a guerra. Eu, como sou pacifista, escolhi a revolução, porque não acredito numa terceira solução. Fiz isso à minha maneira. Não sei se foi bom, mas fiz. Você, faça o que puder. Eu quero que você seja feliz”.

A expressão da felicidade do filho é revelada na cena seguinte, quando ele assiste a uma belíssima cena erótica do filme A Comédia de Deus, do cineasta português João César Monteiro (vide vídeo). Na cena, uma mulher simula nadar sobre uma mesa e o velho, João de Deus, parece coordenar seus movimentos, regendo-a. Na cena seguinte, Joseph se encontra com Monika e a pede para “nadar” sobre a mesa, como no filme de Monteiro. Está aí a significação erótica plena do amor: “eu danço e venero você”.

Por vezes, Laurent expressa suas visões políticas na própria construção dos enredos e na maneira de agir dos personagens. Para Laurent, “trabalhar com pornô também era um ato político”. Um exemplo é o que ele diz à jovem atriz que protagoniza um de seus filmes: “Se vejo você gozando, não preciso ouvir. O mesmo com os gritos. Segure. Algo quase mecânico. Não tente ser autêntica… não tente criar uma emoção. A emoção sou eu que procuro. Ah, outra coisa: na felação final, quando ele gozar, engula o esperma. Não sobre o rosto. (…) Você é muito bonita”. Percebemos que o cineasta teme a conspurcação do rosto da jovem pelo sêmen masculino. É impossível não reconhecer a questão imediata de gênero que é colocada em evidência na cena. Na parte final do filme, Laurent diz à entrevistadora: “A felação é o centro do pornô. Pelo menos é o mais estimulante. Sempre me perturbou. Porque não são só dois órgãos, há também um rosto. E aí, o rosto da atriz é a última fortaleza humana”.

O Bittrich de Bolaño, por sua vez, procura explorar o grotesco em seus enredos, assim como também o belo almejado pelo pornô de Laurent. Eis um trecho do conto, em que o narrador recorda um dos mais belos e profundos enredos de Bittrich:

“Otra película: Barquero. Por las ruinas uno podría creer que se trata de la vida en Latino América después de la Tercera Guerra Mundial. Las chicas recorren basureros y caminos despoblados. Luego se ve un río de cauce ancho y aguas tranquilas. El Pajarito Gómez y otros dos tipos juegan a las cartas iluminados por una vela. Las chicas llegan a una fonda en donde los hombres van armados. Sucesivamente hacen el amor con todos. Desde los matorrales contemplan el río y unas maderas atadas torpemente. El Pajarito Gómez es el barquero, al menos todos lo llaman de esa manera, pero no se mueve de la mesa. Sus cartas son las mejores. Los maleantes comentan acerca de lo bien que juega. Qué bien juega el barquero. Qué suerte tiene el barquero. Poco a poco comienzan a escasear los víveres. El cocinero y el pinche de cocina martirizan a Doris, la penetran con los mangos de enormes cuchillos de carnicero. El hambre se enseñorea de la fonda: algunos no se levantan de la cama, otros deambulan por los matorrales buscando comida. Mientras los hombres van cayendo enfermos las chicas escriben como posesas en sus diarios. Pictogramas desesperados. Se superponen las imágenes del río y las imágenes de una orgía que nunca termina. El final es previsible. Los hombres disfrazan a las mujeres de gallinas y después de pasarlas por el aro se las comen en medio de un banquete nimbado de plumas. Se ven los huesos de Connie, Mónica y Doris en el patio de la fonda. El Pajarito Gómez juega otra mano de póquer. Tiene la suerte apretada como un guante. La cámara se coloca detrás de él y el espectador puede ver qué cartas lleva. Los naipes están en blanco. Sobre los cadáveres de todos ellos aparecen los títulos de crédito. Tres segundos antes del final el río cambia de color, se tiñe de negro azabache.”

Assim como Laurent, Bittrich acaba por desviar a temática padrão do pornô para uma temática marcadamente política, de inserção da realidade social que configura a realização dos filmes: la tristeza de las vergas Bittrich la entendió mejor que nadie. Quiero decir: la tristeza de esas pollas monumentales en la vastedad y desolación de este continente”.

A esta intenção política, conjuga-se um nonsense satírico e irônico, presente em alguns filmes de Bittrich, como o Hecatombe, descrito pelo narrador:

“Un mes después ya están filmando la primera película:  Hecatombe. Mientras el mundo se convulsiona el alemán filma Hecatombe. Una película sobre las convulsiones del espíritu. Desde la cárcel un santo recuerda las noches de plenitud y jodienda. Connie y Mónica lo hacen con cuatro tipos con pinta de sombras. Doris y el ganso más grande de Bittrich pasean por la ribera de un río de poco caudal. La noche está inusualmente estrellada. Al amanecer Doris encuentra al Pajarito Gómez y se ponen a hacer el amor en la parte trasera de la casa de Bittrich. Hay un gran revoloteo de gansos. Connie y Mónica aplauden asomadas a una ventana. La verga de chicharrón del santo resplandece de semen. Fin. Los títulos decrédito aparecen sobre la imagen de un policía durmiendo. El humor de Bittrich.”

Para concluir estes apontamentos, uma rápida reflexão: a maior finalidade do cinema pornô artístico não é, certamente, o orgasmo. Muito menos o processo, o ato sexual em si. Se a indústria pornográfica contemplasse os desejos de cada um de seus consumidores, talvez ela desse uma chance ao pornô artístico. Porém, há a emergência da satisfação em massa: você é individualmente especial, mas faz parte de um grupo que deve gozar pela mesma mulher ou homem. O sistema dentro do qual vivemos (e que, supostamente, supre as nossas necessidades) manipula e canaliza o nosso desejo a pessoas e coisas que ele pode oferecer, inviabilizando a pluralidade de nossa alegria, reduzindo nossos desejos a obsessões e complexos fetichistas. Este sistema (ou sistemas?) está em tudo o que tocamos, em tudo o que vemos, em tudo o que sentimos, diariamente.

Sobre enaiêmairê

"à morte lhe cai bem a tristeza leve de uma severa espera." Enrique Vila-Matas

7 comentários em ““Quando me excito, eu gozo, eu canto”: apontamentos sobre o pornô artístico

  1. Jonathas Duarte
    20 de maio de 2012

    Num ensaio em que tenta reconstruir um massacre específico de judeus ocorrido em 1942, recorrendo exclusivamente a narrativas orais, o historiador Christopher Browning chega à embaraçosa necessidade de distinguir “fato” de “interpretação”.

    Diante da impossibilidade, acaba citando uma frase que atribui a um juiz, a respeito da pornografia: “não posso defini-la mas a conheço quando a vejo”.

  2. Jonathas Duarte
    20 de maio de 2012

    Existe também um artigo do Eco, no Segundo Diário Mínimo, sobre as situações em que os “especialistas” são convocados (geralmente em algum processo judicial) a decidir se um filme retrata o sexo apenas por sacanagem, ou se almeja fins artísticos…

  3. enaiêmairê
    20 de maio de 2012

    Obrigada pelas indicações, Jonathas Duarte!

  4. Fábio Lourenço G.P.
    12 de fevereiro de 2013

    Como um dos tentáculos da Indústria Cultural, a Indústria Pornográfica responde a todas as suas categorias e sub-categorias. Ao “artístico”, vide obras mainstream como “O Império dos Sentidos (Nagisa Oshima, 1976)” ou, mais recentemente, “Anticristo (Lars Von Trier, 2009)”. Particularmente, o que me tornou amante e admirador da Pornografia foram algumas obras produzidas entre as décadas de 1960 e 1970, cujo teor refletia aquele momento de discussões e transformações nos costumes, a Contracultura, etc., especialmente no Ocidente. Cito, para ilustrar, “O Diabo na Carne de Miss Jones (The Devil in Miss Jones, de Gerard Damiano, 1973)”, sobre uma mulher (Georgina Spelvin) de meia idade que, ao suicidar-se, obtém a plenitude da satisfação sexual no Limbo; e “Atrás da Porta Verde (Behind The Green Door, de Jim e Art Mitchell, 1972)”, sobre o rapto de uma garota (Marilyn Chambers) utilizada em um espetáculo erótico para satisfazer os fetiches de uma platéia burguesa e elitista, e que ao viver essa experiência, ao mesmo tempo lisérgica e surreal, se descobre e se liberta sexualmente.
    Paradoxalmente, a Indústria Pornográfica, assim como “manipula e canaliza o nosso desejo”, nos traz uma diversidade de práticas e comportamentos aos quais podemos ou não nos identificarmos. Considero um tema a ser discutido e parabenizo os editores da Revista Sinuosa por abrirem este espaço. Abraço.

    Indicação Bibliográfica: O Que É Pornografia (Eliane R. Moraes e Sandra M. Lapeiz; Coleção Primeiros Passos – 128; Ed. Brasiliense; Segunda Edição; 1986). O Olhar Pornô – A Representação do Obsceno no Cinema e no Vídeo (Nuno Cesar Abreu; Ed. Mercado de Letras; 1996). Boca do Lixo – Cinema e Classes Populares (Nuno Cesar Abreu; Ed. Unicamp; 2006). Nas Redes do Sexo – Os Bastidores do Pornô Brasileiro (María Elvira Díaz-Benítez; Coleção Antropologia Social; Ed. Zahar; 2010).

    • enaiêmairê
      13 de fevereiro de 2013

      Puxa, muitíssimo obrigada, Fábio! Não sou de maneira nenhuma entendida em pornografia e, portanto, gostei muito de suas indicações!

    • enaiêmairê
      13 de fevereiro de 2013

      Aproveito para dizer que seria interessante você também publicar na Sinuosa sobre o tema. Está convidado!

      • Fábio Lourenço G.P.
        14 de fevereiro de 2013

        Muito obrigado pelo convite. Me sinto lisonjeado. Sinceramente, admito que após a faculdade de Jornalismo e o progressivo afastamento dessa área de atuação profissional, meu prazer pela criação textual se esvaiu com o tempo… Contudo, o gosto pela leitura permaneceu e a “chama desse lampião” ainda mantenho acesa. Assim como o texto sobre o Pornô Artístico despertou a minha atenção e vontade de tecer um comentário, o seu convite pode me tirar da letargia e me incentivar a voltar a escrever. Uma vez mais, agradeço. Abraço.

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Publicado às 19 de maio de 2012 por em Cinema, Prosa, Revista Sinuosa e marcado , , , , .
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