Revista Sinuosa

Como um punk defendeu a Croácia (notas sobre o Satã da Panônia).

São incertas as circunstâncias da morte de Ivica Culjak, soldado da Guarda Nacional Croata – que mais tarde se transformaria no exército nacional da Croácia. Sabe-se que foi em 1992, durante a desintegração violenta e traumática da antiga Iugoslávia. Um tiro de rifle na cabeça (ou mais). Oficialmente, foi a arma de Ivica que disparou acidentalmente. As testemunhas são escassas e contraditórias. Existe uma versão extra oficial, na qual ele foi assassinado. Em uma emboscada armada por seus próprios colegas de armas.

Mas por que os soldados croatas atirariam em um dos seus? A resposta poderia ser simples: guerras são assim, guerras são cruéis e, nelas, as pessoas morrem. De modo sempre injusto e em circunstâncias que nem sempre precisam fazer sentido. Mas não é, pois Ivica Culjak não era só um soldado, era também uma lenda: Satan Panonski (ou Satã da Panônia), poeta, performer e músico punk. Ativista político, homossexual, anarquista, antinacionalista e autoproclamado herege.

Culjak nasceu em na cidade croata de Vinkovci, segundo ele “antes de tudo, uma cidade de fantasmas, terroristas, anarquistas, junkies, homossexuais, lésbicas, uma cidade de desinformação, controvérsia, absurdo, paradoxo; uma cidade de 40 mil habitantes, uma cidade que é corretamente chamada de ‘a Chicago iugoslava’…”. Mas foi ao viajar para a Alemanha que conheceu o punk, tendo retornado para a Iugoslávia e logo criado sua banda Pogreb X (cujo nome significa ‘funeral X’).

Nos anos 1980 foi preso, acusado de assassinato. Numa briga, matou um membro da máfia – o que, segundo Satan, foi para defender-se. Alegando insanidade não foi enviado para a prisão, mas para um manicômio judiciário – onde começou a pintar e escrever poemas. Em 1990, com a independência Croata ocorreu uma grande anistia e, nela, Satan foi solto.

Nessa época tornou-se bastante próximo de Ivan Glišić, outro notável da cena punk iugoslava. Passam a circular rumores de que Panonski esteja envolvido no nacionalismo chauvinista, e Glišić – que tinha ido a Budapeste para um concerto de Nick Cave – lhe telefona, para inquirir a esse respeito. A resposta é negativa e, no entanto, pouco depois Culjak estaria integrando a Guarda Nacional Croata.

Uma das poucas apresentações que fez durante essa época – pouco antes de sua morte – resultou numa fita k7 chamada de ‘Kako je punker branio Hrvatsku’ (ou: Como um punk defendeu a Croácia), onde justificava – com argumentos não muito concisos, é verdade – sua adesão ao exército.

Panonski foi uma das figuras mais expressivas do punk iugoslavo. E, exatamente por isso, superava essa cena: apesar de muitas de suas músicas serem típicas para o gênero, boa parte de sua discografia (especialmente os EPs e o único LP solo) aproximam-se mais de spoken word e harsh noise.

Mas o que havia de mais punk nele – e que mais superava o punk – era justamente sua performance: automutilação, coprofagia, travestismo, sadomasoquismo. É como se, transformando sua própria sexualidade em arma, Satan expressasse o descontentamento que tinha com o mundo ao seu redor e o atacasse. E as letras acompanham: de maneira a satisfazer os freudianos, elas misturam sexo, a mãe do autor, suicídio e opressão política.

Satan Panonski, para mim, é uma das figuras mais expressivas do punk e, também, do século XX: toda o caos, a contradição e a violência estão presentes em sua obra e sua vida (que acabam por confundir-se).

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Sobre Luciano R. M.

"Eu no entanto gostaria enfim de estar além do verso e da prosa, da intenção e da justificação." Czesław Miłosz

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Publicado às 12 de julho de 2012 por em Música, Política e marcado , , , , , , , .
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