Revista Sinuosa

A máscara e a morte: a pintura anárquica de James Ensor

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A Multidão dança uma Dança Macabra: A Morte Perseguindo o Rebanho dos Humanos, 1896, água-forte sobre papel do Japão, 23,4 x 17,5 cm.

Será a carnavalização, ou a inversão de papéis, uma construção realizável de anarquia? A pergunta me persegue quando reflito sobre a obra A Entrada de Cristo em Bruxelas em 1889, do pintor belga James Ensor (1860-1949). Aliás, estas reflexões não somente se enquadram na tela acima mencionada, mas em características gerais da obra do pintor.

A obra de Ensor se caracteriza pela inserção de elementos carnavalescos, como as máscaras e as caricaturas, na representação da vida social e cultural de seu meio. Longe de encará-las como elementos de uma tradição imoral (ou, até mesmo, amoral), o pintor as desloca para âmbitos sociais fora de contexto como também em conjunção a crenças religiosas arraigadas a uma moral imutável. Eis a gaucherie de Ensor, a qual podemos observar no painel A Entrada de Cristo em Bruxelas, em 1889.

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A Entrada de Cristo em Bruxelas, em 1889, (1888 – 1889), óleo sobre tela, 252,2 x 430,5 cm.

A peregrinação, retratada na obra, apresenta dupla natureza: uma religiosa e outra claramente política. Em primeiro plano, há uma multidão mascarada, disforme e desorganizada (“um selvático ajuntamento de rostos mascarados, gordos e zombeteiros”), atrás da qual segue uma banda marcial. Mais ao fundo e ao centro – abrindo a tela para uma profundidade impensada, se levamos em conta a dimensão do primeiro plano – temos um Cristo incólume, de ar distante, a abençoar os “fiéis”. Na parte superior da pintura, lê-se “Vive La Sociale”, sobre um fundo vermelho. Na peregrinação doutrinária de Ensor, quem recebe os louros é o povo. Porém, esta “social” é distorcida, vulgar, erótica e “igualitária” no sentido de efetuar uma peregrinação que escandaliza, cuja moral é deteriorada; enfim, uma peregrinação para a morte, no sentido de uma quase dança macabra. Se há uma representação da morte na pintura, ela é rica, colorida, exagerada, viva de elementos de um “mundo às avessas”, onde o grotesco assume maravilhosamente a exuberância do sublime. Mas, ao contrário do sublime, o grotesco não é etéreo.

Há, portanto, a conjunção atípica entre indivíduo (neste caso, um indivíduo em especial doutrinário e agregador) e uma multidão que se agrega pela diversão: “Fanfares doctrinaires, Toujours réussi” (Fanfarras doutrinárias, Sempre bem sucedido). A suspensão da doutrina religiosa em benefício de uma sociopolítica que apoia sua igualdade e sua liberdade numa representação simbólica da multidão que encena um “mundo às avessas”, é, para mim, uma espécie milagrosa de anarquia. A anarquia produzida por Ensor é efetuada por meio do escárnio que elementos caricaturais, como a máscara, produzem quando fora de contexto.

Pormenor

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Sobre enaiêmairê

"à morte lhe cai bem a tristeza leve de uma severa espera." Enrique Vila-Matas

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Publicado às 20 de dezembro de 2012 por em Artes Plásticas, Política, Revista Sinuosa e marcado , , , .
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