Revista Sinuosa

Voyage

Autoria: verbete de dicionário cujo valor é associado a um outro, ainda mais assustador: responsabilidade. Talvez eu não goste, talvez eu até mesmo não entenda. Por isso é raro eu querer que essas coisas que eu escrevo sejam sonorizadas em ouvidos alheios. Mas daí dá vontade de saber como e por onde essas palavras se desenham, talvez em outras bocas ou em outros olhos. Então, segue um poema de minha autoria: nada em especial, apenas palavras que viajaram no tempo e no espaço, alguns assovios do vento que percorreram meus ouvidos na estrada.

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Voyage

Meu nome é ninguém,
como a estátua flutuante
espalha crateras sobre o solo
que pisa redondamente:
um elefante de pó urra para sua incontrolável
humanidade.

O corpo do gigante é uma ponte
com a qual ele molda a costa:
pés fincados nas rochas,
pés como espadas não decepam a água.

Ninguém pisará essa terra submersa.
Esconderam o avesso do avesso do rio
como se revirassem o Brasil
e encontrassem um Japão,
que é possível sorver por um canudinho de refrigerante.

Ninguém romperá o vaso que corre
do Atlântico ao Báltico:
uma espiral não se quebra com
a força das vagas uma
concha não se abre.

Ninguém permanecerá
deitado, aflito, a contar fusos
se a chuva indefinir o dia,
espalhar luz no céu como um borrão.

Mas
ninguém tirará do mundo
o mundo.
Acorrentadas de encosta a encosta
veias encerram veias
(o campo de trigo ou a
plantação de arroz
o que define um hemisfério?)
preciosas mutações na palma da mão.

E mais
ninguém ocultará aquilo
que irrompe
do Everest o desejo de aparecer
nas imagens por satélite.
No topo
a partícula de neve e tudo
o que suspende o grito e desaba
sobre as águas dos canais;

O pássaro bica em silêncio
o vidro da janela que
descerra.

Curitiba, 14 de agosto de 2012.

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Sobre enaiêmairê

"à morte lhe cai bem a tristeza leve de uma severa espera." Enrique Vila-Matas

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Publicado às 12 de janeiro de 2013 por em Poesia, Revista Sinuosa e marcado , , , .
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