Revista Sinuosa

Flores para Hitler

cohenLeonard Norman Cohen é famoso. Mundialmente famoso, eu diria. Por conta de sua música – transitando entre o rock, o pop e o folk, indo de uma lírica sublime até algo que me parece um tanto kitsch – é um dos canadenses mais louvados mundo afora.

Existe uma outra faceta de Cohen, porém, que me parece um pouco menos apreciada- eu diria até que subapreciada – que é a sua produção literária. Poeta e novelista, é um dos mais eminentes autores de seu país, sendo que seu livro Beautiful Losers é considerado como a introdução do pós-modernismo no Canadá.

Interesso-me, porém, mais por sua poesia, em especial o livro Flowers for Hitler: tentando afastar-se da pecha de poeta (e músico) lírico, Cohen volta-se para a sátira e para o grotesco, escrevendo, entre outras coisas, a respeito da Shoah. Traduzo, aqui, alguns poemas dessa obra.

O único turista em Havana pensa sobre o lar

Venham, irmãos meus,
vamos governar o Canadá
encontrar nossas cabeças sérias,
derrubar asbestos na Casa Branca,
e fazer os franceses falarem inglês,

não só aqui mas em todo lugar
torturemos os senadores, um a um,
até que confessem,
vamos limpar o Partido Novo,
vamos encorajar as corridas negras
para que eles sejam gentis
quando tomarem o poder,
façamos a CBC falar inglês,
vamos todos numa só direção,
e flutuemos
até o litoral da Flórida,
sejamos turistas,
vamos flertar com o inimigo,
fundir gusa em nossos quintais,
vender neve
para países subdesenvolvidos.
(É verdade que um de nossos líderes nacionais
era um Católico Romano?)
aterrorizemos o Alaska,
vamos unir
Igreja e Estado,
não vamos ficar aí deitados,
vamos ter dois Governadores Gerais
de uma só vez,
vamos arranjar outra língua oficial,
e decidir qual ela será,
vamos criar uma Igreja da Família para o Canadá
para a sugestão mais original
vamos ensinar sexo em casa
para os pais,
vamos ameaçar virar parte dos EUA
e desistir de última hora,

venham, irmãos meus,
nossas cabeças séries nos esperam em algum lugar
como valises Gladstone abandonadas
depois de um golpe de estado
vamos coloca-las bem rápido,
e mantenhamos um silêncio de pedra
No St. Lawrence Seaway.

Havana, 1961.

 

Esperando por Marianne

Eu perdi o telefone
que tinha seu cheiro

Estou vivendo ao lado do rádio
todas as estações de uma vez
mas pego um a cantiga de ninar polaca
pego no meio da estática
mas ela some eu espero e mantenho o ritmo
ela volta quase adormecida

Você pegou o telefone
sabendo que o cheiraria sem moderação
talvez esquentaria o plástico
para pegar todas as migalhas do seu hálito

e se você não for voltar
como é que eu vou ligar para dizer
você não vai voltar
e pelo menos poder discutir

 

Tudo o que há para saber a respeito de Adolf Eichmann

OLHOS: Médios
CABELOS: Médios
PESO: Médio
ALTURA: Média
CARACTERÍSTICAS MARCANTES: Nenhuma
NÚMERO DE DEDOS NAS MÃOS: Dez
NÚMERO DE DEDOS NOS PÉS: Dez
INTELIGÊNCIA: Média

O que você experava?
Garras?
Incisivos avantajados?
Saliva verde?

Loucura?

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Sobre Luciano R. M.

"Eu no entanto gostaria enfim de estar além do verso e da prosa, da intenção e da justificação." Czesław Miłosz

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Publicado às 24 de abril de 2013 por em Poesia, Tradução e marcado , , .
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