Revista Sinuosa

Sobre poetas que migram: Rumen Stoyanov

rumenstoyanovA figura literária do imigrante ou do exilado é uma constante em várias partes do mundo, e praticamente sempre constitui interessante objeto de análise. São figuras que carregam qualquer coisa de duplo. Enquanto que alguns países essas figuras adquirem um status bastante importante – como Vladimir Nabokov, um dos grandes escritores dos EUA no século XX, mas que na verdade era russo; ou ainda como Witołd Gombrowicz, polonês exilado na Argentina – por aqui são comumente ignorados por público e crítica.

Se, por um lado, temos Stephan Zweig, mais conhecido – e, de certa forma, naturalizado em nossa cultura: a expressão ‘Brasil, o país do futuro’ nada mais é do que o título de um de seus livros -, mas com uma circulação que me parece bastante restrita; temos escritores ainda mais ignorados, como Valery Pereleshin – poeta gay russo que exilou-se aqui depois de não conseguir tornar-se monge ortodoxo na China – e Rumen Stoyanov, sobre o qual debruço-me aqui.

Stoyanov, que compartilha o nome com um jogador de futebol seu conterrâneo, mas com o qual não tem nenhuma relação, nasceu em 1941 em Dragonovo, na Bulgária. Formou-se em letras hispano-americanas na Universidade de Havana e trabalhou, por muito tempo, como tradutor do português e do espanhol para o Búlgaro. São de sua autoria as traduções – ou ao menos os prefácios – de muitas obras da literatura brasileira publicadas em seu país.

Rumen Stoyanov, hoje professor de estudos latino-americanos na Universidade de São Kliment Ohridski, foi, em três ocasiões parte do corpo diplomático da Bulgária no Brasil, nos períodos de 1972-1975, 1992-1995 e 2001-2004. Foi na primeira dessas ocasiões, em 1972, que começou sua carreira de poeta – escrevendo em língua portuguesa.

Selecionei, aqui, algum desses poemas – que, lembro, não foram traduzidos, mas escritos diretamente em língua portuguesa. Poemas que me soam bastante imagéticos, mas sempre simples – Stoyanov identifica-se com o homem simples do povo. Sempre presente está a tensão da emigração, o ser estrangeiro ao país e à língua em que se encontra, o que leva a reflexões a respeito do próprio fazer poético, essa atividade que parece lhe soar, ao mesmo tempo, necessária, mas um tanto deslocada nesse mundo.

 

VER

Ver que a nuvem traz a chuva para lavar o lombo do cavalo,

que os lagos são os olhos dos poemas,

que a praia é azul porque a noite está triste,

que o mar é salobre porque nele cai o suor do pescador,

que as mãos dos nossos sonhos são calosas,

que a verdade está numa garganta faminta,

que duma bala no peito brota uma flor de esperança

e a liberdade cresce em nós incontida como uma árvore.

IMPORTA-ME

 

Importa-me este engraxate.

Porque tem oito anos.

Porque sua primeira carícia foi para um sapato.

Porque ajoelha por uma moeda.

Porque limpa o sapato até refletir a vida toda.

Porque seus sonos cheiram a graxa.

Importa-me porque este mundo é um sapato sujo

e é preciso limpá-lo bem.

GOIÁS VELHO

 

As telhas estão empalidecidas como mortos,

o frescor é um privilégio de Deus,

o cadáver insolado do tempo jaz na praça.

Mas a vida continua:

o relógio da torre bate

e nas janelas em vez de cucos

aparecem solteironas.

AMOR

 

Os homens que querem as mulheres feias,

as mulheres que querem os homens pobres,

as crianças que querem os pais que não podem alimentá-los,

os pais que querem seus filhos assassinos,

os pedreiros sem lar que querem as casas construídas por eles,

os camponeses que querem a terra que os mata com seca,

os cegos que querem a vida,

os que nos querem sem merecermos.

JANEIRO

 

Cai uma chuva quente e a terra vermelha fica branca de neve.

O calor é tão abafado que as palmeiras racham de frio.

E o meu coração bate uma vez no Brasil, duas vezes na Bulgária.

MONÓLOGO COM OS GARIS SOBRE A POESIA

 

Sei que não vão ler este poema. Sei que não lhes importa.

Como para alguns é mais importante aquela coisa celestial, branca, fria e remota do que os sapatos furados de vocês.

Mas o assunto é poesia.

A poesia é uma rua. Uma rua ampla, infinita. E tudo está nela:

os altos silêncios dos coqueiros suspensos entre o céu e a terra como enormes lágrimas verdes,

o concreto recém-fundido que na tarde quente cheira a messes,

a noite vindo com os passos de uma menina descalça,

o perfil de uma pestana pesada de chuva,

um livro aberto como duas mãos generosas e forte como um punho,

um sonho em forma de bicicleta, um canguru espantado,

o suor nosso de todos os dias com hálito de motores e pensamentos,

e sobretudo homens, muitos homens, principalmente homens, fundamental homens:

o desamparado que cobrira seu sono com jornais,

o servente de pedreiro que come em sua marmita o que ganhou ontem,

a velha que tece placidamente uma meia no outono,

a Carmen voltando, pensativa, do cansaço à casa,

o poeta com sua tímida silhueta de letra i,

o preso que acaba de sair da cadeia e aprende a viver como as crianças aprendem a andar,

o operário de cujas mãos partem trilhos, trens e mais-valia,

vocês acendendo seu cigarro matinal e começando a longa marcha diária detrás da vassoura,

quer dizer, o assunto é poesia.

Quer dizer, a poesia é uma necessidade social, como o varrer de ruas.

Escrever versos é um trabalho sem pressa mas sem trégua, como o varrer de ruas.

É um pertinaz recomeço constante e a caneta não é mais leve do que a vassoura.

O poeta limpa os corações, como vocês as ruas:

é um humilde empregado do Serviço de Limpeza Universal, por sinal pior pago que vocês.

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Sobre Luciano R. M.

"Eu no entanto gostaria enfim de estar além do verso e da prosa, da intenção e da justificação." Czesław Miłosz

Um comentário em “Sobre poetas que migram: Rumen Stoyanov

  1. O Meio e o Si
    28 de abril de 2013

    Amigos deste nobre espaço,
    Gostaria de indicar (sem isenção! :-)) meu primeiro livro, a novela “O Meio e o Si”: http://omeioeosi.wordpress.com/2013/04/15/informacoes-sobre-o-livro/
    Espero que gostem do livro e do blog!
    Obrigado,
    André

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Publicado às 26 de abril de 2013 por em Poesia e marcado , , , , , , , .
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